Passou a mão em sua testa suada. Debaixo daquele sol infernal, Amarantys não se preocupava com o suor que escorria pelos seus poros. Viu sangue em seus dedos. Essa era sua preocupação maior. Estava ferida, exausta, visivelmente debilitada e acuada na base daquele planalto pedregoso.
- Isso é simplesmente perfeito! – bradava consigo mesma, enquanto sentia sua respiração ofegante provocando um barulho um tanto perturbador para ela. Estava com raiva de si mesma por tudo aquilo estar acontecendo, e justamente com ela.
- Desgraçados! Malditos! – continuava enraivecida, enquanto tentava controlar sua respiração e recompor suas energias vitais. O sangue escorria de sua testa pelo lado esquerdo de seu rosto. Olhou seu braço direito. Viu três arranhões profundos por baixo dos rasgos da manga de seu colete. Permanecia agachada, recostada e escondida atrás de uma enorme pedra, mas ainda podia escutar aqueles rosnados e latidos. Eram enormes lobos do deserto procurando sua próxima vítima que seria a refeição principal daquele dia escaldante.
O suor escorria insistentemente de seu rosto queimado pelo sol abrasador, enquanto seus olhos eram incomodados ora pelas gotas de suor, ora pelos raios solares quando tentava olhar para o céu, como que tentando ensaiar blasfêmias perante qualquer Ser Divino que estivesse impassível, observando silencioso um desfecho delirantemente mortal.
Amarantys sabia que precisava agir rápido, antes que sua energia astral interior se esgotasse e suas pistolas astrais, invocadas através de seu poder transcendente, sumisse completamente de suas mãos. Era uma verdade que não podia ser anulada de maneira nenhuma. Ou agia nos próximos 40 segundos, ou sua morte seria certa, e seu corpo serviria de alimento para aqueles lobos descomunais.
Os 20 segundos anteriores foram suficiente para toda uma sequencia de ações entre ela e os animais ferozes se tornar um mirabolante exercício de saltos extremos, cambalhotas fabulosas e tiros quase certeiros. Alguns lobos tombaram perante o poder de suas armas letais. Porém, ela não conseguira acertar todos, e alguns deles avançaram enraivecidos, e como num momento slowmotion de movimentos quase congelados pelo tempo, Amarantys esquivou-se de um dos lobos com um giro de corpo completamente na horizontal, mas não de outro que cravou uma das patas em seu braço, fazendo-a cair desequilibrada no chão, mas a tempo de inclinar-se novamente e saltar para trás, pulando em seguida para a segurança momentânea das enormes pedras que viu logo adiante.
- Como eu meti nesse inferno? Me diz!! Como eu me meti nesse inferno?? – gritava contida Amarantys, olhando para o céu e sentindo o sol cegar por um rápido momento sua visão. Enxugou o suor que insistia em cair pelo canto de seu olho. Sentiu latejar sua ferida exposta na testa. Dois segundos para tentar lembrar se aquela ferida foi na hora do desequilíbrio, quando bateu sua cabeça no chão rochoso, ou quando saiu pulando pelas pedras e sua testa foi de encontro a uma saliência rochosa no meio da subida. Poderia ter sido os dois, ou não. Não se lembrava. A única coisa que sentia era aquela dor que começava agora a latejar pela sua cabeça.
Continuava a ouvir os rosnados ecoando próximos. Pareciam se aproximar. Era sinal de que os lobos estavam tentando farejar seu cheiro. Estava sentindo sua energia astral diminuir um pouco. Sua Aura de Vento que havia evocado assim que avistou aqueles lobos enormes começava lentamente a perder forçar e a diminuir de intensidade ao redor de seu corpo. Mais dois segundos, recompondo suas energias, e sua mente trabalhou suas lembranças. Recordou sua missão em flashs, e a imagem do Agente Oficial Cox veio em sua mente como um assombro. Era ele quem administrava todos os armazéns e era responsável pelo sistema de estocagem de mercadorias da última cidade em que havia estado. Amarantys ouvira muitas histórias amaldiçoadas contadas por Cox. Muitas dessas histórias falavam também sobre pessoas que desapareciam misteriosamente sem deixar qualquer pista que pudesse explicar seus sumiços. E muitos desses desaparecimentos eram semelhantes aos outros casos relatados nos outros continentes de Nevareth, inclusive em Pastur, sua terra natal. Amarantys sempre pensava em tudo isso que estava acontecendo pelo mundo, e imaginava que essas ocorrências poderiam ser o início de algo muito maior que estava por vir em um futuro não muito distante. Mas ela não queria ser agora mais uma das milhares de pessoas desaparecidas.
- Não!! Que desgraça! Preciso agir antes que minha energia astral se desfaça! – Amarantys estava entrando em desespero, pois começou a sentir um leve formigamento nas mãos e nos punhos, o primeiro sinal de que a energia astral estaria terminando. Dessa forma, ela não poderia mais utilizar suas pistolas e elas desapareceriam completamente. Estaria, então, indefesa, e não haveria tempo para concentrar novamente sua energia espiritual e invocar seu modo de batalha astral. Seria seu fim diante do perigo que rondava ali perto.
Os lobos latiam ferozmente entre si, como que revoltados por não conseguir encontrar ainda sua presa. Amarantys teve sorte em achar aquela proteção rochosa e se esconder sem que os lobos famintos tivessem a chance de conseguir enxergar sua fuga. Mas aqueles animais eram insistentes, estavam buscando seu cheiro pelo ar, e não demoraria a encontrar seu esconderijo naquela parte das pedras. Enquanto o vento estivesse a seu favor e não mudasse de direção, ela estaria por momentos segura. Mas até quando? Lembrou-se novamente do Agente Cox, e da missão que ele lhe confiou. Precisava encontrar no meio daquela imensidão desértica o refúgio do Capitão Mark, e entregar a ele uma mensagem urgente enviado por Cox.
A mensagem estava guardada em sua pequena sacola de viagem. “A sacola! A mensagem!!”, pensou Amarantys subitamente. Olhou ao seu redor e não viu a sacola que antes estava presa firme em sua cintura, mas que havia sido arrancada de seu corpo, muito provavelmente pela pata do mesmo lobo que havia acertado seu braço. Olhou para sua cintura e viu outro rasgo justamente na parte onde a sacola ficava presa.
- Não! Isso não pode estar acontecendo comigo!! Que desgraça! – disse cerrando os dentes. Sua cabeça latejou novamente de dor. Mais cinco segundos. Foi tempo suficiente para Amarantys levantar-se rápido, esgueirar seu olho por sobre a pedra onde estava escondida e enxergar onde a bolsa havia caído. Justamente no local onde ela caiu desequilibrada após o ataque de um dos lobos. Agachou-se novamente. A aura de Vento ao redor de seu corpo diminuia cada vez mais de intensidade.
- Seus desgraçados. Vocês pensam que vão acabar comigo? Malditos, vou abrir suas entranhas e estender o couro de vocês nesse deserto dos infernos! – sussurrou Amarantys numa raiva cada vez mais crescente.
Repentinamente ouviu um rosnar muito perto, um bafo quente invadiu o ar ao seu redor. Ela olhou para cima e encarou os olhos flamejantes de um dos lobos descomunais. Três vezes maior do que ela, o lobo agigantou-se por sobre a pedra onde ela permaneceu escondida nos últimos 20 segundos. Aquele monstro mostrava suas presas, sua espuma de raiva, sua fome animal, sua face da morte diante dela. Amarantys arrastou-se para trás e pulou no ar em um giro épico ao redor de seu próprio corpo. Por dois segundos pairou no ar, esticou seu corpo numa extensão atlética, e sua sombra projetou-se esguia e enigmática sobre o lobo. Fechou os olhos, respirou fundo, concentrou todo o restante de sua energia astral liberada para seus braços e mãos, que empunhavam suas pistolas automáticas. Então freneticamente começou a disparar contra aquele lobo. Sua Aura brilhou intensamente naqueles momentos restantes. Seus olhos pareciam faíscas pulsantes. Seus saltos eram monumentais e seus tiros fatais. Eram inúmeros lobos, e ela precisava de mais alguns segundos para liberar toda a sua fúria de batalha e conjurar a morte para todos aqueles monstros o quanto antes através de seus tiros.
Projetou-se enérgica em saltos inacreditáveis e foi atingindo um por um os lobos, com rajadas fantásticas de suas pistolas. Eram disparos tão rápidos que os olhos não podiam acompanhar tamanha precisão e velocidade. O tempo precisaria ser generoso e soprar um slowmotion sensível ao fluir de cada movimento e ação daquela mulher guerreira e determinada a não morrer ali naquele momento.
Dessa vez, nenhum dos lobos conseguiu atingir Amarantys, sequer arranhar ou tocar sua pele, que passava a milésimos de distância de suas presas e garras vorazes. Aqueles 20 segundos foram mais do que suficientes para que ela abatesse toda aquela enorme matilha de monstros sanguinários do deserto, que soltavam gemidos a cada vez que eram acertados.
Seu último salto foi justamente onde ela sentiu o primeiro vacilo de seu desequilíbrio naquele início de combate. Ao seu redor, ela agora só conseguia enxergar, a muito custo, os corpos inertes e ensanguentados dos lobos. Ofegante, cansada e marcada pelo seu próprio sangue, Amarantys agachou-se e pegou a sacola de volta, jogando-a por sobre seu ombro. Subiu o planalto à sua frente, e do alto da colina, ainda com suas pistolas nas mãos, vislumbrou uma paisagem única, feita de imensidões de dunas de areias, formações rochosas magníficas, ruínas abandonadas e oásis esquecidos. E apesar daquele lugar todo parecer estar derretendo há muito tempo com aquele calor fervente, sem dúvida nenhuma o Deserto da Lamentação era um imenso santuário de riquezas esquecidas. Em muitos pontos podia-se esbarrar em construções seculares arruinadas e quase sepultadas pelas tempestades de areia, que sempre assolavam a região. Mas Amarantys não tinha tempo de apreciar aquela imensa paisagem à sua frente.
Fechou os olhos, sentiu sua força astral se esvair, sua Aura de Vento se dissipar completamente, e suas pistolas desaparecem lentamente de suas mãos. Demoraria um bom tempo até ela conseguir invocar novamente aquele seu poder interior, aquele seu modo de batalha astral. Respirou fundo. Passou mais uma vez a mão na testa. Sua ferida na testa ainda sangrava. Calmamente desceu aquela colina, dirigindo-se para as dunas à sua frente. Ainda tinha um longo caminho pela frente.
